Roteiro de 3 dias na Capadócia – o clichê turco

Ah, a Capadócia… Sem dúvidas, o lugar mais conhecido da Turquia. Quem nunca ouviu falar da região cheia de formações geológicas particulares em que o passeio de balão é a atração mais famosa? Ou quem não lembra daquela novela da Globo que se passou por lá? Pois bem, apesar de muito conhecida e de ser possível encontrar inúmeros tours e passeios na Internet, gostaria de compartilhar aqui um roteiro de 3 dias na Capadócia para mochileiros independentes, sem precisar pegar nenhum tour organizado.

História

Antes de contar um pouco da história do lugar, vale lembrar que a Capadócia é uma região que fica bem no centro da Turquia, não se limitando a apenas uma cidade. A região é bastante grande e conta com uma infinidade de atrações, que vão desde o famoso passeio de balão até trilhas, igrejas, cidades subterrâneas e castelos, sempre numa paisagem de perder o fôlego.

A história de ocupação da Capadócia é bastante antiga, remontando ao século 6 a.C. Por lá, passaram diversas civilizações, entre persas, gregos, romanos e bizantinos, até chegarem os turcos e se estabelecerem.

Essa rica história é facilmente percebida numa visita à região, já que são muitas as ruínas e monumentos que as civilizações foram deixando. Na época bizantina, por exemplo, mais ou menos no século 8 d.C., as populações locais expandiram um complexo sistema de túneis subterrâneos para se protegerem dos árabes. Essas cidade subterrâneas, principalmente as de Derinkuyu e Kaymakli, resistem até hoje e impressionam pelo seu grande tamanho.

Outros resquícios de civilizações antigas que podemos ver são as inúmeras igrejas gregas que ainda existem na Capadócia. Até 1923, muitos gregos viviam na região. Com a formação da república turca, porém, todos eles foram expulsos e obrigados a irem para a Grécia. Com isso, tiveram que abandonar suas casas – e todas suas igrejas. Hoje, elas são uma das grandes atrações da Capadócia.

Por onde chegar e onde ficar?

Antes de seguir para o roteiro, é importante dizer que são inúmeras as possibilidades de transporte até a Capadócia. Por estar localizada bem no centro do país, é possível chegar de trem, ônibus ou avião, dependendo do tempo disponível e da origem.

No meu caso, acabei pegando um ônibus de Kahta, onde visitei o Nemrut Dagi, até Kayseri, que é a maior cidade da região da Capadócia e onde também há um aeroporto bastante grande.

Kayseri é geralmente o local por onde todos chegam, mas a base turística mesmo é Göreme, uma cidade minúscula, mas extremamente turística, que fica bem no centro da Capadócia.

Ali, há uma enorme variedades de hostels, hotéis e pousadas com preços super variados. No meu caso, acabei ficando num hostel bastante agradável, Hostel Terra Vista, em que paguei apenas 6,50€ por noite num quarto com 8 camas. Além de ficar numa tradicional casa esculpida nas pedras, o hostel também contava com uma vista sensacional do vale, de onde se podia ver todos os balões sobrevoando a região.

Além da oferta hoteleira, é de Göreme também onde saem os passeios de balão e onde começam a grande maioria das trilhas para visitar os diversos vales da Capadócia. Por isso, recomendo a hospedagem na cidade.

Roteiro de 3 dias

Depois da clássica introdução, não vou mais enrolar e vou direto ao assunto: o que fazer em 3 dias na Capadócia? Qual o roteiro a seguir?

Quando estive lá, busquei fazer um pouquinho de tudo para conhecer bem a região, incluindo algumas trilhas, visitas às cidades subterrâneas, passeio de balão e por aí vai… Vou separar as coisas que fiz a cada dia para facilitar o planejamento.

Dia 1 – trânsito

Depois de umas 9 horas de ônibus de Kahta a Kayseri, optei por dormir na cidade porque cheguei super tarde, depois de meia-noite.

Então, o dia 1 na Capadócia começou mesmo na manhã seguinte, quando peguei um ônibus para Göreme, que durou pouco mais de uma horinha. Foi um dia muito tranquilo, já que eu vinha de uma viagem super longa, então aproveitei para descansar e me planejar para os dias seguintes, que começaram todos super cedo.

Dia 2

Foi o primeiro dia de atividades propriamente dito na Capadócia. Como todos os passeios de balão têm como objetivo ver o nascer do sol, isso significa que todo mundo acorda super cedo lá – e não foi diferente comigo.

A primeira atividade do dia foi espetacular e já deu um gostinho sensacional do que mais estava por vir. Acordei perto de 4:15 da manhã para subir até um ponto panorâmico super conhecido, o Lovers’ Hill (a colina dos apaixonados). Esse local é ideal, pois fica pertinho do centro de Göreme e tem uma vista linda com o combo nascer do sol + balões. As fotos falam por si só, mas é lindo, vale muito a pena.

Depois de acordar cedo e tomar um café da manhã reforçado, foi o momento de visitar um outro lugar sensacional na Capadócia o Göreme Open Air Museum Monastery and Churches (Museu ao Ar Livre – Monastério e Igrejas), um local muito especial, que era ocupado por monges gregos por séculos até 1923.

Esse complexo de igrejas escavadas nas tradicionais rochas da região contam com afrescos belíssimos e com uma igreja mais bonita que a outra. É bastante triste imaginar que todo mundo que morava ali foi obrigado a se mudar do dia pra noite, por conta da política da recém-formada República Turca. Seja como for, é um lugar muito bonito, que vale a visita, sendo um local onde facilmente dá pra ficar umas 2 ou 3 horas explorando.

Para fechar o dia super produtivo, ainda deu tempo de visitar a cidade subterrânea de Kaymakli, a mais antiga das cidades subterrâneas da Capadócia. Com pelo menos 4 andares abertos ao público, Kaymakli é um emaranhado de túneis mais ou menos estreitos que eram usados pela população local por séculos como moradia. É um lugar realmente impressionante e dá para ver as diversas casas que existiam ali, além de igreja, estábulos, cozinhas e por aí vai.

Além de servir como proteção para possíveis invasores, morar nesses túneis também era muito bom em termos térmicos, já que a temperatura é bastante estável ao longo do ano, independente das estações. Para isso, um complexo sistema de circulação de ar foi desenvolvido – o que é muito doido, se formos pensar que as primeiras cavernas foram construídas lá pelo século 7 a.C!

Dia 2

O segundo dia na Capadócia foi o dia que usei para caminhar e explorar as diversas trilhas que percorrem os vales da região.

De novo, acordei perto de 4 da manhã, pois queria ver o nascer do sol em um ponto bonito. Por isso, decidi começar o passeio pelo Love Valley (Vale do Amor), famosa e curiosa formação geológica que lembra umas torres de contos de fada. São umas rochas bem diferentonas em formato peculiar. Melhor do que eu descrever, acho que o melhor é ver as fotos mesmo.

Logo depois de mais um nascer do sol maravilhoso, cheio de balões, foi o momento de seguir para a minha próxima parada, Uçhisar. Essa cidadezinha fica a cerca de 2 horas de caminhada a partir de Göreme, passando pelo Love Valley. As formações peculiares vão desaparecendo aos poucos, dando espaço a outras rochas, não menos bonitas.

Uçhisar é um ponto bastante turístico da Capadócia por contar com um castelo de mais de 60 metros de altura. Esse castelo foi, na verdade, esculpido numa rocha, o que deixa tudo mais interessante. Além disso, a paisagem desde os arredores do castelo também é muito especial, já que fornece um panorama de toda a região. Infelizmente, não consegui entrar no castelo, pois cheguei muito cedo e ainda não estava aberto, então não consigo descrever muito como é seu interior… Vou ficar devendo essa.

Depois de Uçhisar, segui a minha caminhada para o Pigeon Valley (ou no bom português, o Vale das Pombas pru pru). Esse vale também é sensacional e muito curioso, já que conta com muitas casas de pombas esculpidas nos topos da rochas. Como é uma rocha sedimentar e bastante maleável, os pássaros foram fazendo seus ninhos nessas pedras e o resultado é essa bonita (e peculiar) paisagem. Gostei bastante desse vale por contar com mais árvores, o que torna o caminho mais fresco, especialmente no verão.

Depois de umas boas 3 a 4 horas de caminhada, cheguei a Çavuşin, uma outra cidadezinha muito simpática que conta com várias casas construídas dentro de uma rocha enorme, relativamente parecido com Uçhisar.

Foi de lá que parti para o último vale do dia: Immagination Valley (ou o Vale da Imaginação). Esse é bastante conhecido por ter uma paisagem meio lunar, também diferente dos outros vales que visitei.

Para ser sincero, achei essa parte da caminhada a mais difícil. Teve alguns momentos em que precisei escalar, o que não foi tão fácil por conta do combo calor + rocha que esfarela. Até hesitei um pouquinho em uma parte mais íngreme, mas deu tudo certo no final. Acho que acabei pegando um caminho mais complicado, por isso o problema.

De qualquer forma, foi também um passeio muito bonito, já que, além de vistas deslumbrantes, também se pode visitar algumas igrejas e casas abandonadas esculpidas nas rochas. Gostei muito e foi uma ótima maneira de fechar o dia com chave de ouro.

O saldo final do segundo foi perto de 25km andados, 3 vales visitados e mais um nascer do sol sensacional. Valeu a pena!

A única coisa que acho que poderia melhorar seria um maior controle nas trilhas, já que as pessoas acabam causando uma erosão muito grande nas rochas (que são bastante sensíveis), então pode ser em uns anos a paisagem desses vales acabe mudando pelo fluxo enorme de pessoas. Acredito que algo simples como delimitar os caminhos já resolva esse problema de forma bem simples.

Dia 3

E no terceiro dia aconteceu finalmente o ponto alto da viagem à Capadócia: o famigerado, famoso, (e não à toa) conhecido mundialmente passeio de balão.

Depois de perguntar em várias agências de turismo locais e buscar na Internet para ver qual seria o melhor preço, acabei fechando o passeio no hostel onde eu estava mesmo, já que foi o mais em conta que encontrei: 130 euros (R$ 680,00 na cotação de hoje). É um preço bastante salgado para um mochileiro, mas tem coisas no mundo que temos que fazer uma vez na vida – e esse passeio de balão é, sem dúvidas, uma experiência única. Outro argumento que posso usar é que o preço é mais ou menos o mesmo de um passeio de balão em BOITUVA. Com todo respeito a Boituva, sou mais a Capadócia em termos de paisagem.

Perto de 3 e meia da manhã (sim, mais um dia acordando super cedo), veio uma van me buscar no hostel onde me juntei a outros turistas para depois irmos todos à zona de decolagem dos balões.

Quando vemos as fotos, não temos muita ideia, mas esses balões são enormes, gigantes mesmo. Cada um tem capacidade para 26 pessoas na sua cesta, então é meio lotado. Caso queira algo mais exclusivo, também há essa possibilidade, mas aí também vai depender do seu poder aquisitivo. Para mim, estava ótimo e foi maravilhoso mesmo assim.

Depois de decolar, o balão fica no ar por mais ou menos uma hora, passando por diversos vales e sobrevoando toda a linda região que eu havia visitado nos dias anteriores. A vista, com centenas de balões voando, e todas essas formações, não tem preço.

Essa horinha de passeio passou literalmente voando, mas foi (de novo literalmente) o ponto alto da Capadócia. É mega turístico? É. É caro? É. É superestimado? De jeito nenhum. Vale a pena? Muito! Sem dúvidas, recomendo a todo mundo essa experiência, é uma das coisas a se fazer uma vez na vida antes de morrer. Foto nenhuma consegue dar a dimensão da beleza desse passeio.

No final das contas, acabei voltando ao hostel perto de 8:30 da manhã. Ou seja, todo o passeio, desde a saída até a chegada, dura perto de 5 horas. O bom é que, depois de chegar, ainda dá tempo de dormir um pouquinho antes de sair para aproveitar o dia.

O passeio de balão foi a última coisa que fiz em Göreme. Depois de uma soneca revigoradora, segui novamente para Kayseri, onde eu tinhaum trem partindo à 1h da manhã do dia seguinte. Apesar de ser a maior cidade da região e hub de transportes, Kayseri não tem tantos atrativos turísticos.

O lugar mais interessante é o Museu da Civilização Seljuk, que conta com uma exposição interessante de história. O mais legal, porém, é o edifício, já que fica num antigo hospital do século 13 completamente renovado.

Além do museu, Kayseri tem também (assim como todas as outras cidades turcas) um Bazaar para chamar de seu – basicamente um mercado central onde se encontra de tudo um pouco.

Em termos gastronômicos, tenho também que ressaltar a especialidade da cidade, que se chama manti. Essa comida é um tipo de ravioli recheado com carne de vaca e servido com iogurte, tomate e manteiga derretida. É gostoso, mas nada extremamente especial que mudou minha vida, mas vale a menção honrosa como prato típico da cidade.

Visão geral

Apesar de nem sempre curtir lugares muito turísticos por serem muito cheios e perderem um pouco da autenticidade original, gostei bastante da Capadócia. Como dá para se movimentar sozinho, seja com transporte público ou a pé nessas trilhas, acabei não sentindo tanto os milhões de turistas que vão à região anualmente.

Considerando tudo, minha experiência foi a melhor possível e recomendo a todos que forem a Turquia que fiquem uns dias na Capadócia, sem guias nem pacotes de tour fechados, para que possa aproveitar de maneira mais tranquila e escolhendo os horários em que tem menos movimento para visitar as atrações.

A paisagem é realmente especial e a perspectiva que o passeio de balão nos dá deixa tudo ainda mais bonito. Recomendo 100%, vale muito a pena!

Esse post é a quinta parte da série de posts do segundo mochilão desse humilde blog, que durou 67 dias. A primeira parte foi sobre a Jordânia, a segunda sobre o Chipre, a terceira sobre Adana e a quarta sobre Nemrut Dagi. Para ver os demais posts, é só clicar aqui.

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