6 dias no Marrocos de norte a sul

País mais visitado da África, com cerca de 10 milhões de turistas anualmente, Marrocos está localizado no norte da África e é muito próximo à Espanha (somente 14 km separam os dois país, através do Estreito de Gibraltar).

De maioria muçulmana, Marrocos é um país muito rico culturalmente, com várias atrações, incluindo o Deserto do Saara, a famosa Marrakesh (também conhecida como cidade vermelha) e a muito visitada cidade azul, Chefchaouen.

Sempre me interessei muito pelo norte da África, então aproveitei a oportunidade de estar estudando em Madrid pra viajar e conhecer um pouco do país. Somando o fato de ter encontrado passagens em conta, eu tenho um amigo que mora em Marrakesh. Assim, seria perfeito: daria pra visitar meu amigo, conhecer o Marrocos e viajar com ele, conhecendo coisas menos feitas para turistas. Vamos lá, então:

Chegada em Marrakesh

Peguei um voo saindo de Madrid à noite com a Ryanair, chegando em Marrakesh perto da meia noite. Logo saindo do aeroporto, já é possível perceber a vibe das pessoas locais, todos tentando te oferecer (na verdade, vender) serviços por ser turista, é algo que incomoda um pouco, mas depois se acostuma. Peguei um transfer que meu tour para o deserto oferecia (abaixo falo um pouco mais sobre ele), que me deixou próximo ao meu hostel. Entretanto, eu acabei reservando um hostel na medina, que é basicamente o centro antigo da cidade. Imaginei que seria como na Europa, porém é um lugar não muito recomendável para se andar à noite, ainda mais com mochilão. Logo que entrei na medina, dois caras começaram a me seguir e me “ajudaram” a encontrar meu hostel. Depois, não deixavam eu entrar no hostel se eu não lhes pagasse. Ficaram metendo medo, falando várias coisas, que coisas ruins poderiam acontecer, etc etc. Na hora, eu tava bem assustado e acabei negociando o valor que daria pra eles (ficou em 15 euros :/ ). Mas ficam as dicas: cuidado com a medina à noite e não pague nada se ficarem te enchendo o saco.

Deserto de Merzouga + Atlas + Ain Ben Hadou

No dia seguinte, fui fazer um tour de 2 dias que havia reservado anteriormente para o deserto de Merzouga com a iGoMorocco (código de desconto customer-loyalty-discount) . Saiu na faixa de 60 euros e eu já não esperava muitas comodidades, já que era uma das empresas mais baratas e não possuía as melhores revisões. Mesmo assim, queria ir conhecer o Saara marroquino e acredito que deu pra conhecer no tour. O tour incluía, além do transfer do aeroporto pro hotel, transporte de van (muito desconfortável) de ida e volta para o deserto,  com paradas em alguns pontos, acomodação em barraca bérbere, janta e café da manhã.
Saindo de Marrakesh de manhãzinha, passamos pelas Montanhas Atlas, uma cordilheira com picos bastante altos. Depois disso, seguimos a viagem até Ain Ben Hadou, um povoado bem turístico onde foram gravadas algumas cenas de filmes famosos. Lá paramos para almoçar e nos levaram em um restaurante bem caro para padrões marroquinos (10 euros o menu). Assim como fiz, sugiro dar um migué falando que tá sem fome e ir comer em qualquer outro restaurante não turístico. Só nessa, economizei mais de 6 euros. Nesse povoado, já dá pra ter uma ideia de como é a zona rural do Marrocos. Me pareceu muito pobre mesmo, aí imaginei como seriam os outros países da África, já que Marrocos é um dos países mais ricos de lá…

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Depois, seguimos para a porta de entrada pro deserto pra montar nos camelos e ir até o alojamento (umas barracas bérberes no deserto). Queria muito andar de camelo, mas depois de 2 minutos, já cansa, visto que não é o meio de transporte mais confortável do mundo, devido ao sobe desce.

Chegando nas barracas, nada de luxo, pelo contrário. Acabei ficando num colchão que tava bem sujo, cheio de areia e muito desconfortável. Mas cansado, não tem problema. À noite, oferecem uma janta bem simples, mas gostosa (um tajine) e depois tocam umas músicas típicas com tambores. Bem interessante. Por estar num deserto, esperava ver muitas estrelas no céu, mas infelizmente o tempo estava um pouco nublado. Outro porém dessa viagem de 2 dias é o deserto, que não tem dunas muito grandes (diferente do de Zagora). Mas pela experiência e preço, achei que valeu a pena.

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No dia seguinte, acordamos bem cedo porque tínhamos umas 8 horas de viagem de volta a Marrakesh naquela vanzinha apertada. Depois de andar mais um pouco com camelos até o veículo, viagem pesada e bem apertada, com outros turistas. Mas nada que mochileiro não esteja acostumado, então segue o jogo.

Chegando em Marrakesh, fiquei na estação de trens, muito bonita e moderna, esperando meu amigo marroquino Adil, já que ficaria em sua casa aquela noite. Depois que chegou, fomos a sua casa, e foi algo que me impressionou bastante. No Marrocos, eles ainda tem muitas tradições, grande parte delas muito diferente das nossas. Chegando lá, tinha uma tábua de doces feitos a mão pela mãe dele, super delicioso, com chá de hortelã (que deve ser servido somente pelo pai da família, como forma de respeito).

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Doces típicos tradicionais feitos à mão pela mãe de meu amigo

Na janta, comi algo muito bom também. Era uma carne de carneiro, penso eu, com molho e legumes. Eles comem com a mão e eu não sabia que havia um jeito específico de comer, usando somente 3 dedos da mão direita. Só que só me avisaram disso depois que eu tava usando todas os dedos das 2 mãos… Acho que dei bola fora.

Marrakesh

No dia seguinte, saímos pra visitar Marrakesh. É a cidade mais turística do Marrocos, com várias coisas para serem vistas. Entre os principais pontos turísticos, estão:

  • Palacio Bahia: para mim, foi a melhor coisa da cidade. É um Palácio datado do final do século XIX, que impressiona pela arquitetura. A área engloba um conjunto de pátios, jardins e quartos, tudo muito decorado com pinturas, gessos e vidrarias. A visita custa apenas 10 dirhams (1 euro) e vale muito a pena!

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  • Medina: é basicamente a cidade velha, que mais parece um labirinto. Cercada por muros que antigamente serviam de proteção, a medina permite ver realmente como é a vida nas cidades grandes do Marrocos. Lá dentro, se pode encontrar de tudo, desde animais, à comida e roupas marroquinas.  Estando lá durante o dia foi muito mais legal do que à noite, então essa é minha recomendação. Além disso, também é bom tomar cuidado e andar sempre atento, já que é muito fácil se perder por lá.
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Medina de Marrakesh

  • Tumbas saadianas: é um complexo que abriga tumbas da dinastia Saad, que governou Marrocos entre os séculos XV e XVI. Contém diversas salas, novamente muito decoradas, com gesso e pinturas impressionantes. Visita também muito barata (por volta de 1 euro).
  • Jemaa el-Fnaa: é a praça central de Marrakesh, onde se pode encontrar de tudo (tudo mesmo!). Desde barraquinhas mais normais vendendo sucos, tâmaras, roupas até encantadores de cobra, homens com macacos e outras coisas bem peculiares, que atraem atenção dos turistas que por ali passam.
  • Mesquita Koutoubia: símbolo de Marrakesh, é a Mesquita mais importante da cidade. Sua construção terminou no século XIII e sua arquitetura é bem bonita. Infelizmente, porém, não é possível entrar nela para visitar.
  • Palacio El Bad: é composto por ruínas de um Palácio do século XVI, construído por um sultão da época. Depois de um tempo, chegou a abrigar uma prisão, mas atualmente é só turístico mesmo. É interessante para visitar, mas não leva mais de meia hora a visita. Uma coisa interessante é o minbar (uma espécie de púlpito utilizado nas cerimônias religiosas muçulmanas) do século XII que há no museu dentro do complexo.

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Depois de visitar a cidade laranja e novamente jantar comida boa na casa de Adil, seguimos de trem para Rabat, chegando de madrugada na cidade.

Rabat

Em Rabat, fiquei no quarto do meu amigo em seu alojamento da universidade. O detalhe é que ele estuda em um instituto militar, assim que teoricamente eu não poderia estar lá. Entrei dando migué, tentando não falar nada, no máximo um “salamaleiko”…

No dia seguinte, saímos pra visitar a cidade. Rabat é a capital do Marrocos. Uma cidade antiga, mas com ares de modernidade. Não é muito visitada por turistas, mas acredito que valeu muito a pena pelo que vi.

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Vamos às atrações:

  • Torre Hassan: essa torre era o minarete de uma mesquita do século XII. Reza a lenda que a ideia inicial era construir uma das maiores mesquitas do mundo na época, porém após a morte do idealizador, a obra não foi continuada. Devido a isso, é possível encontrar as ruínas da mesquita em frente à torre (são 200 colunas, aproximadamente).
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Torre Hassan ao fundo e ruínas da mesquita

  • Mausoléu de Mohammed V: bem próximo a Torre Hassan, este mausoléu foi construído em 1971 para abrigar o corpo do rei Mohammed V, muito adorado pela população. Além dele, seu filho, o rei Hassan II também está foi enterrado ali. É um edifício bem bonito e com muita ostentação na decoração. O prédio possui quatro entradas diferentes e há, em casa uma delas, um guarda com roupas típicas marroquinas. É um lugar bem legal para se visitar.

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  • Chellah: basicamente é uma necrópolis muçulmana fortificada. Só que é muito mais do que uma fortaleza, porque há muitas coisas interessantes no local. Nesse complexo, há vestígios arqueológicos de todas as civilizações que ocuparam a região. Primeiramente, foram os fenícios que tinham colônias. Depois, os romanos estabeleceram no lugar uma cidade e por fim os muçulmanos conquistaram a região. Com tanta história, podem ser encontradas diversas estruturas dessas épocas, incluindo um banho romano, uma mesquita do século XII e um local que produziam azeite no século I! Recomendo a visita guiada, valeu muitíssimo a pena.

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  • Kasbah: é uma fortaleza medial próxima à foz do rio que delimita as cidades de Rabat e Salé. O que mais gostei foi caminhar no bairro próximo a essa fortaleza. Há ruas bem coloridas e é um lugar muito agradável.
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Kasbah, suas casas brancas e o rio que divide as cidade de Rabat e Salé

  • Medina: como de praxe nas cidades marroquinas, demos uma volta pela medina de Rabat também e era muito parecida com todas as outras que visitamos. Nessa, vi uns animais vivos sendo vendidos, bem peculiar…
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Jabutis de diversos tamanhos sendo vendidas (sdds tina)

À noite, depois de andar bastante pela cidade, seguimos rumo ao norte do país de trem, mais especificamente a Tanger. Chegamos à cidade perto das 7 da manhã.

Norte do Marrocos: Tanger, Tetuan e Chefchaouen

Tanger é a porta de entrada dos europeus que chegam via mar ao país. Da cidade se pode inclusive ver o sul da Espanha, é muito perto mesmo.

Na cidade, ficamos umas poucas horas e visitamos algumas coisas, incluindo a medina e um passeio pelo orla.

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Visto do porto de Tanger

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Centro antigo da cidade

Para seguir para a próxima cidade, Tetuan, fomos até a rodoviária da cidade. Nunca vi algo mais bagunçado que aquilo. Várias pessoas gritando, poucas placas. Realmente, não dava pra entender quase nada. Tinha inclusive dois homens brigando e um maior dando um pau em um que era metade do seu tamanho. Uma zona. Sorte que eu tava com meu amigo. Vale lembrar que os ônibus no Marrocos são muuito baratos (uma passagem pra uma viagem de 2 horas custou apenas 3 (TRÊS!!!) euros e pra outra de uma hora e meia custou 1,50 euros), porém não muito confortáveis, nem tão seguros.

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Um dos ônibus em que andamos em ótimas condições

Depois de encarar o busão, chegamos em Tetuan, uma cidade que não é muito conhecida, mas que também me surpreendeu positivamente. Achei muito bonita.

Em Tetuan, basicamente caminhamos pela cidade, passando pela medina e por alguns pontos muito bonitos, incluindo o Palácio Real. Acredito que, no geral, foi a Medina que mais curti, já que não havia muitos turistas, então era mais “verdadeiro” em comparação a cidades mais visitadas. Sua arquitetura também é bastante interessante e é, inclusive, patrimônio da humanidade pela UNESCO.

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Finalmente, depois de Tetuan, pegamos mais uma vez um busão (que novamente não estava nas melhores condições possíveis) em direção à famosa cidade azul: Chefchaouen.

Chefchaouen é uma cidade com uma vibe muito hippie, que é toda pintada de azul. Há diversas teorias sobre a cor da cidade e os porquês vão desde repelir insetos no verão à uma possível intervenção por parte dos judeus que viviam na cidade no século passado.

Independente do motivo da cor, a melhor coisa para se fazer na cidade é sair para caminhar e se perder nas vielas da medina da cidade. Além disso, um programa muito bom é ver o por do sol no morro que há ali perto, observando a cidade ao longe.

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Nessa noite, diferente das outras que passamos em trem ou na casa do meu amigo, acabamos ficando em um hostel. Novamente, era dentro da medina. Mas como estava com meu amigo e pela cidade ser menor, foi tudo mais tranquilo e não tive nenhum problema com pessoas querendo “ajudar”.

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Hostel onde ficamos: lugar com decoração bem tradicional e por apenas 6 euros a noite

No último dia, eu tinha o voo pra Espanha saindo de Rabat à tarde. Sim, seria muito mais fácil voltar de ferry/ônibus, já que eu tava no norte do país, mas quando comprei passagens, não sabia ainda qual seria o roteiro. Então, tive que voltar de busão pra Tanger e depois pegar o trem pra Rabat. Uma dica fica por conta do busão que sai da estação de trem de Rabat pro aeroporto. Como eu não achei os horários em nenhum lugar da internet, vou compartilhar o que vi lá na hora.

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Horários do ônibus que sai do centro de Rabat para o aeroporto

Visão geral

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O Marrocos é um país muito diferente dos países ocidentais, não só da Europa, mas também do Brasil. O costume deles de pedir gorjeta pra tudo e querer tirar vantagem em cima dos turistas irrita bastante, mas com o tempo acho que da pra se acostumar. Apesar disso, os marroquinos são muito simpáticos e é um povo feliz e bem aberto, sendo muito bastante receptíveis em grande parte do tempo (pelo menos foi o que percebi no tratamento recebido pelo meu amigo com as outras pessoas).

Uma coisa muito interessante também foi uns táxis que peguei com meu amigo, que tem rotas já pre definidas. Ou seja, você entra no carro, paga uns 2 reais, espera lotar e depois ele sai e deixa todos no mesmo ponto final.

Outra diferença, que também me pareceu bastante presente no país, é a pobreza. Na minha opinião, o Brasil é um país pobre, mas após ver o interior do Marrocos, vi que existem lugares ainda mais pobres (e isso que Marrocos é um dos países mais ricos da África, imagina então nos países mais ao sul…). Foi muito triste ver isso.

Outra coisa muito diferente de nossa cultura é a influência da religião na vida das pessoas. Como o Alcorão não permite comer carne de porco, não se encontra carne de porco em nenhum lugar. Salsichas, linguiças, presunto. Nada é feito de porco. Outro fato são as chamadas das mesquitas para ir rezar (o conhecido AllahuAkbar). Bem legal e diferente de escutar. Mas algo que me surpreendeu muito também foi a questão da mendicância. Como a religião de certa forma “incentiva” o compartilhamento de coisas com os mais pobres, sempre que alguém pede algo (comida ou dinheiro, na maioria dos casos), a outra pessoa é quase que obrigada a dar. Por esse motivo, as pessoas não tem o costume de comer na rua, já que, com certeza, alguém vai pedir e ela vai ter que dar. Isso aconteceu comigo, em que eu estava tomando um refrigerante e um homem me abordou pedindo um pouco.

Por fim, acho que valeu muito a pena visitar o país. Recomendo a todos, pela cultura, culinária, belezas naturais e tradições. Vá (tomando um pouquinho de cuidado) que você não vai se arrepender!

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