6 dias na Romênia – o país do Drácula: Mochilão Parte IV

No meu mochilão, depois da Bulgária, o próximo país a ser visitado seria a Romênia, no qual passei 6 dias.

Romênia é um país muito peculiar, cuja língua oficial é o romeno, sendo considerado uma ilha linguística, já que todos os país ao redor falam línguas eslavas (e o romeno é considerada uma língua romana).

Sua história remonta às ocupações romanas na região, que correspondiam ao território conhecido como Dácia. Na Idade Média, a região sofreu invasões de vários povos, incluindo eslavos, tártaros e otomanos, tornando o território  um mix cultural, com regiões dominadas por diferentes reinos e impérios. A Transilvânia, por exemplo, já pertenceu tanto ao Reino da Hungria, como ao Império Austríaco. Outra região do país, a Valáquia, onde hoje se encontra a capital Bucareste, chegou a ser dominada no século 14 pelos otomanos. Aliás, é dessa época o personagem mais famoso da Romênia, o Conde Vlad, o famoso Drácula. Reza a lenda que ele liderou suas tropas em resistência ao avanço dos otomanos nessa região.

Após a Idade Média e os diversos anos sob domínio de outros governos, a Romênia finalmente se tornou independente em 1878, passando a ser um reino. Entretanto, o território que compreende o país hoje só foi anexado à Romênia após a Primeira Guerra Mundial, em que o Império Austro-Húngaro cedeu terras ao país.

A monarquia romena durou até 1947, ano em que o comunismo foi implantado no país, sob grande influência da União Soviética. Apesar dos ideais, o sistema acabou não funcionando bem no país devido ao ditador que esteve no poder de 1965 a 1989: Nicolae Ceaușescu. Este homem linha dura tinha ideias mirabolantes e buscou erradicar a dívida externa do país. O problema, porém, é que ele colocou o peso disso nas costas da população, que enfrentou muitas dificuldades no período, incluindo falta de comida. Além disso, Ceaușescu também buscou edificar construções megalomaníacas, como o Parlamento romeno, em Bucareste, por exemplo.

Devido à miséria que a população enfrentava, em 1989 houve uma revolução que terminou com o fuzilamento de Ceaușescu e de sua esposa no Natal desse ano. Após isso, o país viveu uma transição ao capitalismo, que culminou com a entrada na União Europeia em 2007.

Atualmente, devido ao difícil momento histórico pelo qual o país passou, a Romênia é considerada um dos países mais pobres da Europa. Entretanto, não é um país perigoso para se visitar. Apresenta uma cultura muito rica, como também atrações bastante interessantes, incluindo cidades históricas, castelos, fortificações e bastante história.

Assim, vamos às cidades que visitei, com alguma dicas do que se visitar…

Como eu estava vindo da Bulgária, minha primeira parada no país foi justamente sua capital Bucareste (não confundir com a capital da Hungria, Budapeste). Peguei um trem que saiu de Veliko Tarnovo, ao norte da Bulgária, chegando em Bucareste cerca de 5 horas depois.

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Cruzando o Rio Danúbio de trem. De um lado, Ruse, na Bulgária. Do outro, Giurgiu, na Romênia.

A cidade de Bucareste, capital e maior cidade da Romênia, com 2 milhões de habitantes é uma cidade muito interessante. Mesmo não sendo muito turística, como outras zonas do país, tem alguns pontos bastante interessantes de se visitar. Além disso, é muito legal ver como a modernidade convive com as construções históricas, principalmente no centro.

Vale lembrar que grande parte da arquitetura e do urbanismo atual vem da época da ditadura comunista, em que o ditador, com suas megalomanias, buscou construir coisas gigantescas. Além disso, também é possível observar os típicos prédios residenciais da era comunista (que são bem feios) em quase toda a cidade. Abaixo, seguem as atrações mais famosas da cidade e que merecem atenção:

Parlamento: segundo maior prédio administrativo do mundo, atrás somente do Pentágono, esse edifício é gigantesco. Não é muito bonito esteticamente, porém realmente impressiona pelo tamanho. É tão grande que se usa menos da metade de seu espaço, o que acaba gerando um grande gasto governamental para sua manutenção.

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Um dos lados do prédio do Parlamento

Bulevardul Unirii: outra construção idealizada pelo ditador, que queria que fosse a resposta comunista à Champs-Élysées de Paris. A avenida possui 3,5 km de extensão, sendo quase duas vezes maior que a irmã francesa.

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Visão do Boulevard em Bucareste. Tudo muito grande.

Museu da História Nacional da Romênia: situado num belo prédio neoclássico, de 1900, este museu conta a história do país, desde a época romana até os dias de hoje. Há diversas esculturas romanas, como também tesouros e joias, e exposições sobre a participação romena nas gueras mundiais. Gostei bastante da visita para conhecer mais sobre o país e recomendo. Para estudantes, o valor do ingresso é de apenas 4 lei, algo em torno de 3 reais. Vale muito a pena!

 

Praça da Revolução: monumento em homenagem às vítimas da Revolução de 1989, possui um obelisco que mais parece um palito de dente com azeitona. É muito mais importante pela história do que pela estética, diga-se de passagem.

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Praça da Revolução

Mosteiro Stravopoleos: construído no século 17, este mosteiro encontra-se no centro histórico de Bucareste e é bastante pitoresco. Infelizmente, uma parte do complexo foi destruída no século 19, sendo a igreja a única parte do período original.

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Interior do Mosteiro Stravopoleos.

Parque Herastrau: parque mais famoso da cidade, abriga lagos, esculturas e museus. Durante os fins de semana, há muitas famílias passeando por ele. Vale a visita.

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Multidão assistindo a um jogo de tênis no principal parque de Bucareste: Parque Herastrau.

Arco do Triunfo: como diversas outras cidades europeias, Bucareste também conta com um Arco do Triunfo, que simboliza a participação romena na Primeira Guerra Mundial. Está localizado ao lado do Parque Herastrau.

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Arco do Triunfo romeno.

Depois de duas noites em Bucareste, peguei um trem de manhãzinha para começar a visitar a região mais turística e conhecida (não por acaso) da Romênia : Transilvânia. Famosa principalmente pelo castelo do Conde Drácula, essa região está localizada nas montanhas, com cidades bastante interessantes. Seu nome significa “além da floresta”, e a região faz jus ao nome, já que grande parte da cobertura florestal romena está nesta área do país.

Em relação à história, diferentemente do sul, que teve uma maior influência do Império Otomano nos últimos séculos, esta parte teve uma influência maior do Império Austro-Húngaro, o que acaba refletindo na arquitetura e culinária da região.

A primeira cidade que visitei foi Sinaia e já me surpreendeu muito logo de cara. Localizada a apenas 70 km de Bucareste, percorridos em cerca de 1 hora de trem, parei em Sinaia por alguma horas antes de seguir caminho a Braşov, a cidade mais importante da região. Uma dica que deixo, caso queira fazer o mesmo, é utilizar o guarda volumes da estação de trem, que permite deixar o mochilão por algumas horas para caminhar pela cidade e aproveitar melhor, sem peso nas costas.

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Simpática cidade de Sinaia, com casas bastante germânicas.

Em relação a Sinaia, a cidade é conhecida por abrigar o castelo de Peleş (leia-se Pelesh), sendo este o principal ponto turístico da cidade.

Residência dos reis no final do século XIX, esse foi o castelo mais impressionante que visitei em toda a minha viagem na Europa. É realmente impressionante observar a ostentação do local. Possui muitos detalhes com madeira entalhada, além de ouro, entre as diversas salas que podem ser vistas. Recomendo fortemente visitá-lo numa viagem à Romênia.

 

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Ao lado deste castelo, no mesmo complexo, há um castelo menor, chamado Pelişor. Minha recomendação é visitá-lo antes do maior, já que, caso visite primeiro o grande, (como foi no meu caso), o pequeno parece sem graça.

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Castelo de Pelişor, visto por fora.

Na cidade, após visitar os castelos e caminhar bastante, acabei parando num restaurante bastante peculiar e gostei. É um restaurante húngaro chamado Alex que serve comidas bem exóticas, incluindo testículos de peru, pata de urso, carne de veado, urso e coelho. Eu, porém, acabei escolhendo por algo menos diferente (e mais em conta), por ser mochileiro.

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Peculiar e curioso cardápio do Restaurante Alex

Depois de Sinaia, segui viagem até Braşov, onde fiquei duas noites.

A cidade é bastante turística, sendo a mais conhecida e famosa da região, principalmente devido à proximidade do Castelo de Bran, o ponto turístico mais visitado da Romênia. Também conhecido como Castelo do Drácula, esse local é, na verdade, um castelo que não tem muito a ver com o Conde que habitou a região. Entretanto, com muito marketing, fizeram com que esse fosse conhecido como o castelo em que ele morou. Pessoalmente, não achei algo muito espetacular, mas recomendo a visita para quem estiver na região.

 

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Além deste castelo, Brașov apresenta outras atrações bastante interessantes, principalmente no que diz respeito a construções históricas:

Centro histórico: no entorno da praça principal (Piata Sfatului), há diversas vielas e ruas medievais que merecem atenção. Uma caminhada por essa região da cidade é muito bem-vinda, permitindo descobrir mais do local.

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Praça central da cidade, com o famoso letreiro ao fundo.

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Detalhe do prédio da prefeitura, com o brasão na cidade em destaque.

Porta de Catarina: antigamente, a cidade era murada, então necessitava de alguns portões para permitir o acesso a seu interior. Este portão, erguido em 1559, é o mais bem conservado da cidade, sendo uma construção bem bonita.

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Portão de Caterina, que resistiu ao tempo.

Igreja de São Nicolau: esta bela igreja reconstruída no século 15 está localizada ao sul da cidade e é uma mescla de estilos arquitetônicos, incluindo bizantino, barroco e gótico.

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Interessante Igreja de São Nicolau.

Black Church: construída no século XIV pela comunidade alemã, a igreja passou a ser chamada assim após um incêndio que atingiu o edifício em 1689. Este incêndio deixou a fachada escura, o que acabou dando este nome.

Além dessas atrações, algo também muito famoso na cidade é o letreiro, que deixa Hollywood no chinelo… Muito mais legal. Para chegar às letras, é possível fazer uma trilha de 40 minutos ou pegar um teleférico. Oferece uma bela vista da cidade, recomendo!

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Detalhe do letreiro, localizado no topo de um morro.

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Vista da bela cidade de Brașov

Depois de Brașov, minha próxima parada seria Sibiu, mais uma cidadezinha simpática na Transilvânia. Com 170 mil habitantes, eu não havia criado grandes expectativas para conhecer a cidade, mas acabou me surpreendendo muito, sendo minha cidade preferida das que visitei.

Grande parte dessa surpresa positiva se deve ao fato de que cheguei na cidade durante o Festival Internacional de Teatro de Sibiu, o segundo maior do mundo. Devido ao evento, as ruas estavam cheias de gente e também havia diversas apresentações de vários estilos de teatro na rua. Foi bem legal!

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Apresentação teatral no Festival Internacional de Teatro em Sibiu. Cidade lotada!

Em relação aos pontos turísticos da cidade, destaque para o centro histórico, com muitos pontos de interesse:

Piata Mare: maior praça da cidade, a praça central de Sibiu é o coração do centro histórico, estando localizada próxima de todos os pontos de interesse.

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Praça principal de Sibiu.

Torre da prefeitura: datada do século 13, é possível subir na torre e ter uma ampla visão da cidade. Além disso, também conta com algumas exposições sobre a cidade. Bastante interessante para se conhecer mais sobre a região.

 

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Ponte da Mentira: a primeira ponte de ferro da Romênia foi construída em 1859 e é bastante simpática.

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Vista da ponte da mentira. Foto para provar que é verdade que estive lá.

Passagem das escadas: trecho que conecta a cidade alta à cidade baixa, traz um ar medieval da época em que foi construído.

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Passagem que faz a ligação entre cidade alta e baixa.

Muros e torres: como a cidade também era totalmente murada no passado, há diversas partes do muro original que ainda resistem ao tempo, como também algumas torres que podem ser encontradas numa caminhada pelo centro antigo.

 

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Museu Brukenthal: antiga residência de um barão, o acervo deste museu conta com diversas obras de arte romenas, bem como também coleções de mapas e de artefatos bastante curiosos.

Nesta cidade, comi algo muito bom, chamado Gogoș. É tipo um pastel, que pode ser frito ou cozido, com várias opções de recheio.

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Gogoș: salgado bem saboroso (e barato!)

Depois de um dia em Sibiu (e com vontade de ficar mais tempo), rumei para minha penúltima parada na Romênia: Sighișoara.

Bastante visitada por turistas, essa cidadezinha medieval com chão de pedra é toda cercada por muros e tem construções bastante antigas, do século 14. Foi nesta cidade que nasceu o mais famoso cidadão romeno da história: Conde Drácula. Além disso, a cidade também é conhecida pela Torre do Relógio, que tem personagens que saem ao soar dos sinos. Conta também com algumas pequenas, porém interessantes igrejas.

 

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É uma cidade que não merece mais do que um dia de visita, mas achei que valeu a pena, sendo uma visita bastante proveitosa.

Por fim, depois de alguns dias viajando pelo país, peguei meu último trem regional, para a cidade de Cluj-Napoca (chamada de Cluj pelos íntimos).

Cluj é a maior cidade da Transilvânia, com 325 mil habitantes, sendo uma das mais importantes da região. É uma cidade universitária, com jovens de diversas partes do país. Apesar de sua importância regional, não é uma cidade com um maior destaque nos guias de turismo. Eu, porém, gostei bastante de passear por lá e recomendo algumas atrações:

Jardim botânico: afastado cerca de 1 km do centro histórico, este parque conta com espécies variadas de plantas, incluindo cactus, plantas tropicais e jardim japonês.

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Algumas flores encontrada no Jardim Botânico de Cluj.

Teatro nacional: inaugurado em 1919, o teatro é bem bonito por fora. Segundo os guias, seus interior é impressionante, porém não tive a oportunidade de visitar por dentro.

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Teatro nacional de Cluj

Catedral ortodoxa: maior igreja ortodoxa romena da cidade, esse templo é muito bonito arquitetonicamente, tanto por fora, como também por dentro. Se localiza em frente a teatro, podendo ser emendada uma visita aos dois pontos.

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Bela Igreja ortodoxa, localizada em frente ao teatro.

Parque Cetatuia: localizado na parte alta da cidade, oferece uma ótima vista de Cluj. No local, há um bar top, perfeito para apreciar o por do sol no fim da tarde.

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Cluj vista de cima a partir de um mirante no Parque Cetatuia.

Parque Simion Barnutiu: localizado na parte da baixa da cidade, possui estruturas de bares e restaurantes que ficam muito bonitos de noite. Além disso, tem também alguns caminhos que possibilitam um maior contato com a natureza.

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Bares localizado no Parque Simion Barnutiu.

Depois de Cluj, peguei um trem com destino a minha próxima cidade, já em outro país: Budapeste, na Hungria.

Impressão geral

Apesar da correria e do pouco tempo que tive para aproveitar as várias cidades romenas que conheci, acredito que valeu muitíssimo a pena visitar o país. A imagem que eu tinha era de um país bem pobre, porém não foi isso que acabei encontrando. A Romênia me surpreendeu positivamente, com cidades bastante seguras, limpas e organizadas. Tem uma cultura rica e diversas atrações históricas, além de paisagens muito bonitas. Se estiver buscando um destino diferente, com menos turistas e barato, considere a Romênia como opção!

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