Conhecendo o Nordeste (da Turquia) – Erzurum e região

Quando você pensa na Turquia, o que te vem à mente? A capital Istambul e sua Grande Mesquita? Ou os balões na Capadócia, com suas casas bastante peculiares? E Erzurum? Já ouvi falar sobre essa cidade, que fica no nordeste da Turquia, bem próximo à Geórgia e Armênia?

Pessoalmente, eu não fazia ideia da existência desse lugar, nunca nem tinha escutado sobre a cidade. De qualquer forma, fui até lá para participar de um Summer School de 3 semanas em 2016, na qual pude conhecer um pouco mais da região, que se mostrou bastante interessante. Antes de começar a falar da cidade e de seus principais pontos turísticos, deixo aqui um mapa com a localização de Erzurum.

 

Com pouco mais de 350.000 habitantes , Erzurum é considerada uma da cidades mais altas da Turquia, estando a mais de 1.700 metros acima do nível do mar. Localizada numa área alta e montanhosa, Erzurum recebe muitos turistas turcos em suas estações de esqui no inverno, quando as temperaturas chegam facilmente a -20°C. Apesar dessa relevância nacional, a cidade não é muito conhecida por turistas estrangeiros que vão à Turquia, possivelmente por causa da longa distância que a separa dos pontos mais famosos, como Istambul (2h de viagem de avião separam Erzurum da maior cidade turca).

Assim como outras cidades da região, Erzurum é rica em história. A proximidade da cidade a importantes centros da civilização humana somada às condições naturais e localização geográfica fizeram de Erzurum um dos mais antigos assentamentos humanos da região, cujas origens remontam a mais ou menos 3000 a.C.

A história da região é bastante conturbada, com guerras, conquistas e reconquistas, tendo sofrido influência de muitos povos, o que explica a arquitetura e as diferentes ruínas que podem ser vistas atualmente na cidade.

Chegou a ser conquistado pelo rei Alexandre, o Grande, da Macedônia no século 4 a.C. Depois, foi a vez dos romanos dominarem a cidade, que passou a fazer parte do Império Bizantino com a divisão do Império Romano. Nesse período, entre as várias invasões, a mais importante foi a do exército muçulmano, que dominou a cidade por 3 séculos. Sob o domínio muçulmano, a cidade prosperou e chegou a ter 200.000 habitantes no século 7, sendo uma das maiores cidades do mundo naquele momento. O Império Bizantino reconquistou a cidade em 948, porém sua influência durou pouco, já que Erzurum passou ao controle dos turcos Seljuks em 1071. A cidade ainda foi invadida pelo Império Mongol no século 13, além de diversos outros povos da região, até ser anexada, finalmente, ao Império Turco-Otomano em 1517.

Na história mais recente, Erzurum também possui alguns episódios de destaque. Assim como outras cidades turcas, foi palco do lamentável genocídio do povo armênio no final do século 19. Durante a Primeira Guerra Mundial, a cidade foi severamente atacada pelo Império Russo, tendo sido invadida pelos russos em 1916. Após o término da Guerra, em 1919, Erzurum ainda se destacou por sediar um evento considerado importante para o início da Guerra de Independência Turca. Nesta ocasião, Mustafa Kemal Ataturk, líder revolucionário e primeiro presidente do país, reuniu-se com delegados na cidade, determinando os próximos passos a serem tomados para criação do Estado turco.

Atualmente, Erzurum é a mais importante cidade da região, possuindo uma das maiores universidades do país, Ataturk University, com cerca de 70.000 estudantes. Além disso, também passam por lá importante gasodutos, que conectam campos de gás natural do Azerbaijão a cidades turcas.

Tendo uma antiga e rica história, Erzurum é uma cidade que possui alguns atrativos em seu centro histórico. Além destes, a região ao seu redor também conta com alguns atrativos naturais, como a maior cachoeira da Turquia e alguns belos lagos. Vamos então às principais atrações da região:

  • Ataturk University: fundada em 1957, essa é a principal universidade da região e uma das maiores universidades públicas da Turquia. Com uma área de mais de 3.500 hectares, caminhar pelos jardins da universidade é uma boa pedida de passeio para se fazer em Erzurum.
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Simpático jardim botânico localizado na Universidade de Ataturk, em Erzurum, Turquia.

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Rinque de patinação na Universidade de Ataturk, em Erzurum, Turquia. É nesse local que os time de hóquei da universidade treinam.

  • Çifte Minareli Medrese (Twin Minaret Madrasa): datada do fim do século 13, esse local servia como uma escola de estudos islâmicos (madrasa), instituição bastante encontrada em países muçulmanos (como a Ben Yousef, no Marrocos). Sua arquitetura chama bastante a atenção pelos seus dois minaretes, que são decorados por tijolos, além de seu portal, que carrega belos detalhes. Atualmente, o local abriga um museu.
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Twin Minaret Madrasa, em Erzurum, na Turquia. Esse estilo de construção é bastante encontrado na cidade.

  • Três tumbas: construídos entre os séculos 12 e 14, estes três mausoléus são um belo exemplar da arquitetura da época. O maior deles abriga os restos mortais do Emir Saltuk, importante governante naqueles tempos. Em relação às outras duas construções, ainda há um mistério, já que não se sabe quem estão nelas.
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Detalhe do maior mausoléu do complexo das Três Tumbas, em Erzurum, Turquia. No fundo, é possível observar os minaretes da madrasa.

  • Mesquita Lala Pashe: datada do século 16, é a primeira mesquita construída pelos otomanos na região. É uma das mais bonitas e incríveis mesquitas da cidade, tendo seu interior bastante adornado, com belos detalhes.
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Mesquita Lala Pashe, uma das mais belas mesquitas de Erzurum. Apesar de seu exterior não chamar muita atenção, seu interior é muito bem adornado.

  • Madrasa Yakutiye: outra madrasa presente na cidade, esta foi fundada em 1310. Possui arquitetura bastante típica desse período, como o portal e o minarete comprovam. Está localizada bem no centro da cidade e atualmente abriga um museu.
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Madrasa Yakutiye, um dos mais icônicos edifícios de Erzurum, Turquia.

  • Bastiões Mecidiye e Aziziye: são os mais famosos e visitados entre os cerca de 20 bastiões localizados nos arredores de Erzurum. Essas estruturas foram erguidas entre os séculos 18 e 19 como uma tentativa de frear as invasões dos russos na região. De forma geral, esses fortes foram construídos nos topos de colinas, de modo a permitir uma vista panorâmica e visualizar o inimigo o quanto antes.
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Mecidiye Bastion, uma das estruturas militares construídas para proteger Erzurum do ataque dos russos.

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Mecidiye Bastion, uma das estruturas militares construídas para proteger Erzurum do ataque dos russos.

  • Grande Mesquita: principal templo religioso de Erzurum, a mesquita possui um formato retangular de 54×51 metros. Foi construída no século 12 e é considerada a mais antiga mesquita da cidade. Seu interior é bastante impressionante e merece uma atenção especial.
  • Castelo de Erzurum: foi construído pelo Imperador Bizantino Theodosius em 415. Apesar de ter grande parte em ruínas, o castelo impressiona pelo tamanho. Na áreas, ainda é possível observar algumas estruturas, como torres e algumas paredes.
  • Rustem Paha Caravanserai: antigo Caravanserai, espécie de hospedagem, este local foi edificado em 1561. Era uma das acomodações mais conhecidas e utilizadas dessa região da Turquia pela localização estratégica, em meio às rotas comerciais. Atualmente, o belo edifício abriga uma galeria de lojas que vendem joias feitas com Ostu, famosa pedra preciosa da região. Há joias com preços bastante salgados, porém há também peças mais acessíveis.
  • Lago Tortum: distante 90 km de Erzurum, este lago foi formado em meados de 1700 devido a um deslizamento de terra. Possui uma cor única, cujo contraste com a vegetação árida forma uma paisagem espetacular. Há alguns mirantes próximos à estrada que possibilitam apreciar a vista. Vale a pena.
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Vista do lago Tortum a partir de um mirante em Uzundere, Turquia. As águas possuem uma bela tonalidade, que contrasta com as montanhas, criando uma belíssima paisagem.

  • Cachoeira Tortum: também resultado do mesmo deslizamento de terra que formou o lago, essa cachoeira é a maior da Turquia, com incríveis 48 metros de altura. Nos dias de sol, forma-se um belíssimo arco-íris que dá as boas-vindas aos turistas.
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Cachoeira Tortum, a maior da Turquia, vista de cima.

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Cachoeira Tortum, a maior da Turquia, vista de baixo.

  • Narman Fairy Chimneys (“Chaminés de Fadas” Narman): localizadas a pouco mais de 90 km de Erzurum, esse local chama a atenção devido às peculiares formações geológicas, que lembram um poucos aquelas casas encontradas na Capadócia. É bastante interessante observar tais formações, que possuem forte cor avermelhada. Pessoalmente, me lembrou um pouco o Valle de la Luna que há próximo à La Paz, na Bolívia.
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Narman Fairy Chimneys, curiosa formação geológica localizada próxima à cidade de Erzurum, na Turquia.

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Narman Fairy Chimneys, curiosa formação geológica localizada próxima à cidade de Erzurum, na Turquia.

  • Outras atrações: além destes pontos turísticos, Erzurum também conta com diversas mesquitas, datadas de diferentes momentos históricos, que podem ser bem interessantes. Há também alguns museus, como o Museu Arqueológico de Erzurum, que conta um pouco da história de ocupação humana da região.

Visão geral

Pessoalmente, gostei bastante de ter conhecido essa região da Turquia. Por não ser muito conhecida por turistas, Erzurum ainda mantém uma grande autenticidade e mostra bem como é a sociedade turca. Além disso, devido ao longo tempo em que estive por lá, também pude conhecer um pouco mais de sua cultura e experimentar comidas típicas.

Iniciando com a gastronomia, a comida da região de Erzurum poderia ser definida como uma mescla da comida mediterrânea com as diversas culturas que passaram pela região. Come-se muitas sopas, vegetais, iogurte e carne de carneiro e bebe-se sempre muito chá. Bebidas alcoólicas são quase inexistentes e bastante difíceis de achar. Comparada com a nossa cozinha, apresenta algumas peculiaridades. O café da manhã, por exemplo, contava com muitos vegetais, como tomates e pepinos, sempre acompanhados de azeitonas. Era bastante saboroso e lembrava uma salada.

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Típico café da manhã turco, com queijos, azeitonas e tomate, sempre acompanhado do chá turco.

Já em relação a pratos típicos do local, o maior destaque vai para o famoso cağ kebab, tradicional tipo de kebab originário de Erzurum. Diferentemente dos demais kebabs, assados verticalmente, esse tipo o cağ kebab é assado horizontalmente e leva somente carne de pernil de carneiro. Come-se acompanhado de pão, coalhada seca e vegetais e é muito gostoso mesmo. Sem dúvidas, foi o melhor kebab que já comi na vida.

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O famoso cağ kebab de Erzurum. Sem comparações com outros kebabs, como aqueles encontrados na Europa.

Outro prato que gostei bastante foi o pide turco, uma espécie de massa assada em forno à lenha, semelhante a uma pizza. Sua cobertura, porém, leva carne moída, queijo local e ovo. Não parece muito gostoso à primeira vista, mas era espetacular. É servido acompanhado de vegetais frescos, como tomate e alface, que combinam muito bem com o prato.

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Pide, um dos melhores pratos típicos que experimentei na Turquia. É basicamente um tipo de pizza com carne, queijo e um ovão em cima. Sensacional.

Além da culinária, pude ver um pouco também da cultura da Turquia. Observei a mudança pela qual a sociedade turca vem passando nos últimos anos, facilmente notada nas ruas. Ainda é uma sociedade bastante tradicional e conservadora, mas parece que está mudando aos poucos. Um exemplo que mostra bem isso é a vestimenta das mulheres. Enquanto as mulheres mais idosas usam burca, tipo de véu que só deixa olhos à mostra, as mulheres da faixa de 40-50 anos usam hijab, que cobre apenas os cabelos e deixam o rosto à mostra. As mulheres mais jovens, com seus 20 anos, por sua vez, praticamente não usam nenhum tipo de véu.

Não só pude observar os costumes e as tradições das pessoas na rua, como pude também presenciar algumas situações mais peculiares em contato com os turcos. Um exemplo disso é um jogo bizarro que jogaram durante um churrasco que participei. Não faço ideia do nome, mas deixo as imagens abaixo para ilustrar a situação. Resumindo bem o jogo, são 2 times de 4 pessoas que jogam. A cada rodada, um dos time tenta manter uma formação inicial, enquanto membros do outro time, um por vez, pulam em cima dessas pessoas. Ganha quem conseguir manter a formação inicial por mais tempo.

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Brincadeira esquisita típica da Turquia. A formação inicial é essa…

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E o objetivo é conseguir mantê-la mesmo com várias pessoas do outro time em cima. Jogo bizarro, porém divertido (ao menos para quem assiste).

Outra coisa sinistra que presenciei no meu tempo na Turquia foi o “golpe militar” que ocorreu no país. Supostamente, alguns militares tentaram tomar o poder, mas foram freados pelo presidente do país (Recep Erdoğan), que, logo em seguida, pediu manifestações nas ruas para apoiá-lo. Por conta disso, todos os dias à noite após o episódio, as pessoas saíam na rua com bandeiras da Turquia em apoio ao presidente (famosa massa de manobra). Foi interessante ver e presenciar um momento histórico tão importante. Vale lembrar que a partir desse “golpe” o presidente endureceu as medidas contra a oposição, prendendo milhares de opositores, incluindo políticos, professores e jornalistas.

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Manifestações convocadas pelo presidente turco Erdogan, após o suposto golpe militar ocorrido em julho de 2016. Foi legal presenciar um momento histórico ao vivaço.

Sem dúvidas, valeu muito a pena a experiência de ficar 3 semanas em um local tão afastado e tão diferente do Brasil. Experimentar diversas comidas locais, ter contato com a cultura, conhecer mais da história e presenciar um suposto golpe militar foram algumas das várias lembranças que ficaram dessa viagem. Além disso, os turcos são muito simpáticos e sempre estão dispostos a ajudar, mesmo aqueles que não falam inglês. Por conta dessas razões e por ter conhecido somente uma pequena parte do país, gostaria de voltar à Turquia com mais tempo para explorar as outras regiões, que certamente também têm muito a oferecer.

Por fim, a região de Erzurum, bastante autêntica, pode ser uma boa pedida para aqueles que busquem conhecer a verdadeira Turquia, longe dos milhões de turistas que visitam anualmente Istambul e Capadócia. Com uma rica história e belas paisagens, incluir a região no roteiro de visita ao país pode trazer belas surpresas.

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