Descobrindo Jaffna e o norte do Sri Lanka

Seguindo a série de posts do Sri Lanka, chegou a hora de falar do norte.

Região bastante diversa do restante do país, a parte norte do Sri Lanka é cheia de surpresas, sendo também muito autêntica e especial. Da religião à cultura, das paisagens à culinária, a região praticamente parece outro país, lembrando em muitos aspectos a vizinha Índia.

Apesar de não ser tão turística como o centro-sul do país, o norte, que tem Jaffna como cidade principal, é um daqueles lugares que valem a pena visitar numa viagem ao Sri Lanka. De Colombo, os ônibus levam cerca de 8 horas de viagem para chegar à capital, uma viagem que não é muito curta, mas que nos leva a um universo completamente diferente.

História

Durante grande parte da história, inclusive durante o período colonial, o norte sempre esteve relativamente separado do sul da ilha. Jaffna, especialmente, foi o centro mais importante da cultura hindu no Sri Lanka por cerca de 400 anos, desde o século XIII.

As coisas mudaram com a chegada dos europeus. Em 1620, os portugueses (sempre eles) capturaram o rei e passaram a converter os locais ao cristianismo. Alguns anos depois, os holandeses, um pouco mais tolerantes, tomaram o poder da cidade e a transformaram em um importante centro comercial. Mais tarde, foi a vez dos ingleses controlarem a cidade, a partir de 1795.

Na década de 1980, porém, que a região acabou se tornando bastante conhecida mundialmente – e, infelizmente, por motivos nada bons. Em 1981, um grupo de cingaleses (a principal etnia do Sri Lanka, que é budista e fala cingalês) queimou a biblioteca de Jaffna (capital da região tâmil, de maioria hindu), o que foi visto como uma grave afronta à cultura local.

Esse foi o estopim da guerra entre o LTTE (Liberation Tigers of Tamil Eelam), que buscava a independência do norte do Sri Lanka, e o exército do país. A guerra civil terminou apenas em 2009, tendo sido esse um período muito triste na história do Sri Lanka: Jaffna enfrentou um bloqueio comercial, milhares de pessoas morreram, enquanto outras milhares foram expulsas de sua casa e a região foi fortemente militarizada.

Somente ao final desse episódio é que Jaffna e região voltaram a prosperar, seja na questão de infraestrutura, que aos poucos é restaurada, como também nas relações entre tamils e cingaleses. Seja como for, a região é atualmente bastante segura para se visitar, sendo o turismo um grande propulsor da revitalização da área – só não se assuste muito com o exército, que está presente em vários lugares, principalmente em checkpoints nas estradas.

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O que visitar em Jaffna e região

As diferenças culturais entre a região e o sul do Sri Lanka já valeriam como atração turística: a comida é muito influenciada pela gastronomia do sul da Índia, as vestimentas são bastante hindus e a língua tâmil também não tem nada a ver com o idioma cingalês. Além disso, não é raro observar vacas (que são sagradas para o hinduísmo) caminhando numa boa pelas ruas da cidade.

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Porém, Jaffna e seus arredores contam com muitas outras atrações, que podem ser facilmente exploradas em 2 dias na região. Vamos então aos lugares mais interessantes para serem visitados.

Forte de Jaffna

Construído pelos holandeses em 1680, era considerado um dos maiores fortes coloniais da Ásia na época. Localizado à beira da lagoa de Jaffna, esse forte é atualmente uma das principais atrações da cidade, possuindo, inclusive, algumas exposições ali dentro.

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Templo Hindu: Nallur Kandaswamy Kovil

Principal templo hindu de Jaffna, é um complexo enorme, cheio de torres com deuses entalhados (gopuram). É um dos mais importantes templos hindus do Sri Lanka e uma visita ao local vale a pena. Para um experiência ainda mais autêntica, é possível visitar o templo durante uma das 7 cerimônias que ocorrem durante o dia. Um fato que achei peculiar sobre esse templo é que homens têm que tirar a camiseta antes de entrar no local.

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Biblioteca Pública de Jaffna

Símbolo da guerra civil que ocorreu no país, a biblioteca de Jaffna foi um dos primeiros edifícios a serem reconstruídos após o cessar-fogo. Possui uma arquitetura bastante interessante.

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Torre do Relógio

Erguido em 1875 por conta de uma visita do príncipe de Gales, essa torre possui um estilo meio mourisco, bastante inusitado para o Sri Lanka. É bem aleatório, mas curioso.

Museu Arqueológico de Jaffna

Escondido numa rua pequena, com uma entrada muito escondida, esse museu conta com alguns artefatos que pertenceram à monarquia de Jaffna, assim como alguns canhões holandeses. O museu não está muito bem conservado, mas pode ser uma opção interessante para se conhecer mais da história da região.

Cankili Thoppu Archway

Reza a lenda que esse arco, que fica relativamente distante do centro da cidade, era uma das entradas originais do Palácio Real do Reino de Jaffna. Apesar de estar num estado bastante sofrido de conservação, ainda é possível ler uma inscrição ao rei Sangili datada de 1519.

Outras atrações nos arredores

Além da cidade propriamente dita, a região ao redor de Jaffna também possui lugares interessantes para serem explorados. Uma viagem de um dia a partir da cidade pode revelar um pouco mais sobre a área, incluindo as abundantes palmeiras típicas, chamadas de palmyrah.

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Entre os principais pontos de interesse, estão as Termas de Keerimalai, que podem ser acessadas por meio de um busão do centro de Jaffna, mas que estavam fechadas para reforma quando visitei, em agosto de 2021; diversos templos hindu, como Naguleswaran Shiva Kovil e Maviddapuram Kanthaswamy Kovil; além de muitas praias, como a Casuarina Beach e a Manalkadu Beach, que podem ser boas opções para se refrescar.

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Restaurantes e cafés

Outro ponto que merece uma atenção especial para mim em Jaffna é a gastronomia. Bastante influenciada pelo sul da Índia, a comida dessa região é completamente diferente do restante do Sri Lanka. Entre as principais comidas, estão dhosas (uma espécie de panqueca com variados formatos), vadais (rosquinhas fritas e muito saborosas), além dos tradicionais curry e pittu (uma espécie de bolinho feito com arroz). É muito interessante notar, também, que a apresentação da comida é bastante diferente do resto do país. Em Jaffna, muitos restaurantes servem as refeições diretamente numa folha de bananeira, sem prato nem nada, e sem talheres. Isso significa que temos que comer a comida com a mão, assim como os locais – bastante raiz, diga-se de passagem.

Entre os restaurantes que mais gostei, destaco aqui o Mangos, que possui um maravilhoso thali, que nada mais é do que um prato com várias comidinhas servidas juntas, o que permite provar várias coisas diferentes numa mesma refeição.

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Outro restaurante que gostei muito foi o Malayan Café, o mais raiz de Jaffna. Lá, a especialidade principal é o dhosa, que é servido numa folha de banana e comido com a mão. O sistema desse restaurante foi bem peculiar, já que, logo depois de sentar, os funcionários vem servir alguns tipo de curry diretamente na folha de bananeira para comer com o dhosa – uma experiência super diferente e muito legal.

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Para um lugar mais chique e mais refinado, a pedida ideal é o Rooftop Bar do Hotel Jetwig, que fica no centro de Jaffna e oferece uma vista 360 graus de toda a cidade, que fica ainda mais sensacional durante o por do sol. No menu, tem um pouco de tudo, inclusive coquetéis e chopp gelado. Vale a visita!

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Visão geral

O norte do Sri Lanka foi um dos lugares mais especiais e diferenciados que tive a oportunidade de visitar no país durante a minha viagem. Com cultura, religião e gastronomia totalmente diferentes do restante da ilha, visitar Jaffna foi uma experiência sensacional. Pode até ser uma região menos turística e até com menos atrações para se visitar, mas só de se observar o modo de vida local, com uma língua diferente e com uma paisagem completamente diversa do habitual já faz tudo valer a pena. Por conta disso, recomendo muito uma visita – mesmo que rápida – à região.

Para dicas de outros destinos no Sri Lanka, veja também o post de Dambulla, SigiriyaGalleElla e Anuradhapura.

No caso de dúvidas ou sugestões, pode deixar um comentário aqui embaixo, que responderei assim que possível.

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